domingo, 30 de setembro de 2018

Inteligência Emocional - Insegurança (podcast)

Inteligência Emocional - Insegurança


Seja bem-vindo ao podcast do Tema Gerador.

O texto a seguir foi extraído de um áudio e está representado de forma a manter-se o mais fiel possível do que foi dito.

Vamos falar sobre uma coisa que afeta as nossas relações, em diferentes níveis?

Vamos falar sobre insegurança.

Mas vamos falar sobre ela nas relações afetivas e amorosas. Porque são nessas relações que a insegurança nos torna reféns. E faz dos outros nossos reféns. Nós somos prisioneiros e aprisionamos os outros.

Tu já assistiu o filme “Os Croods”? É a animação de uma família pré-histórica que vive dentro de uma caverna. O pai dessa família diz que tudo que eles precisam tá ali dentro da caverna, e tudo que tem fora dela é ruim, é perigoso.

Isso é a insegurança. Ela age assim. Nós criamos uma zona de segurança. E tudo que tem ali dentro me deixa seguro. Eu coloco as pessoas que me relaciono, de maneira mais íntima, dentro da minha “zona de segurança”

Eu não vou usar o termo “zona de conforto” porque insegurança não é confortável. A insegurança não é uma zona de conforto ela é bastante desconfortável, na verdade.

Só que a gente não tem, bem, uma consciência disso, da nossa insegurança. Pra nós tem haver, sim, com o comportamento do outro. É o comportamento do outro que me deixa seguro ou inseguro (dentro da minha cabeça, né?). É o outro que tem que agir de um determinado jeito, para que eu me sinta seguro.

Quanto mais insegurança a gente tem, menor é a nossa capacidade de confiar. E a confiança é base, de tudo. Mas a gente também vai distorcer a confiança. A confiança, para nós, é o lugar por onde a nossa insegurança caminha. Onde ela habita. Pra eu confiar em alguém essa pessoa tem que fazer o que me deixa seguro. Sempre!

Dizem que: demora uma vida inteira pra construir a confiança e que ela pode se partir em um segundo. Isso não é confiança, é insegurança.

Sem confiança não temos espaço suficiente para o amor, por exemplo.

Quando eu sou inseguro eu tenho um padrão de comportamentos, pros outros, que me deixa tranquilo, e qualquer coisa que a outra pessoa faça, que saia desse padrão me afeta, porque eu não confio no outro. Eu fico chateado e triste, fico com raivinha, porque fizeram algo que me deixou inseguro. Como se a segurança estivesse na ação do outro. Como se a segurança estivesse na dependência da ação de outra pessoa.

Não tem nenhuma chance disso dar certo

Porque as pessoas não vão ser o que a gente espera, elas não vão. A gente não pode criar um circulo de comportamento pros outros.

Obvio que a insegurança ela tem sua origem. 

Quem nunca foi traído, seja por namorada (o), marido, mulher, amigo, parente, pai e mãe. Todo mundo já teve a sua confiança quebrada. E também já quebrou a confiança de outra pessoa. Porque a gente tem a mania de se vitimar, dizendo que os outros fazem isso ou aquilo, mas a gente também já fez alguma coisa desse gênero.

Ter a confiança partida dói. Obvio que dói. Mas dói mais porque a gente se relaciona de uma maneira que, desde o começo, é insegura. 

A gente começa uma amizade ou um namoro e pensa que aquela pessoa, agora, é nossa. É MEU AMIGO, MEU NAMORADO, MEU ISSO, MEU AQUILO.


Ninguém é teu

As pessoas que nos encontram e que escolhem caminhar conosco, escolhem fazer isso. Assim como a gente também escolhe.

Não escolhe de uma maneira totalmente livre e descondicionada. Não, nós temos padrões mentais. Na realidade mesmo, a nossa liberdade é bem curta. No entanto, ainda assim, em um certo ponto, escolhemos.

Mas a gente se agarra às pessoas, a gente busca nelas, a gente espera que elas nos deem alguma coisa, que a gente na verdade nem sabe direito o que é.

Mas podemos justificar: Tá, tudo bem, eu ‘deixo’ (eu deixo, né? Porque a pessoa é minha então eu ‘deixo’), a pessoa bem livre pra fazer o que ela quiser; daí descubro que eu estou sendo traído. E aí? Quem fez papel de idiota?

Meu amigo, minha amiga, se deixou a pessoa livre e ela te traiu, ela ia te trair igual se não tivesse a liberdade. Mais cedo ou mais tarde ela ia fazer igual. A diferença é que com liberdade tu vai perder menos tempo.

“Ah, mas é que eu amo muito essa pessoa, eu não quero arriscar perder ela”. Não tem como tu perder uma coisa que não é tua! As pessoas não são coisas. E nem são tuas.

Tua mãe não é tua; teus irmãos não são teus; teu pai não é teu; os teus filhos não são teus. Teu namorado; tua namorada; teu noivo tua noiva; teu marido; tua esposa: não são teus.

E olha que legal: tu não é de ninguém também. Tu é no máximo teu, e olhe lá ainda.

Se tu gosta de alguém confia nessa pessoa. 

A confiança não é fácil de cultivar, ela é dolorida, ela é incomoda. A confiança é ansiosa. Mas só no começo.

Quando ela desperta dentro da gente ela é leve, é fluida e ao mesmo tempo firme, clara, aberta. A pessoa pode nos dizer que vai passar o fim de semana viajando com os amigos nós vamos ter outras coisas pra fazer, como trabalho da faculdade, ou trabalho normal mesmo, qualquer outra coisa. E vamos dizer: Vai e se diverte, aproveita esse momento com teus amigos.

Mas vamos dizer isso sem ironia.

A confiança é libertadora, é gostosa, acolhedora, também é amorosa.

Viver dentro de um relacionamento sem confiança é como ficar indo a um lugar onde te acusam de roubar o tempo todo. Toda a hora tu vai ter que ir lá e mostrar que não roubou nada. Tu consegue imaginar uma situação assim? Ela até pode ser suportável no começo. Mas não vai ser por muito tempo.

A gente pode até achar que um pouquinho de insegurança é bom num relacionamento. Um pouquinho de ciúmes

”Ai como um pouco de ciúmes é bom, mostra que a pessoa se importa com a gente, que a gente se importa com a pessoa, ai com e bom.”

Não, não, não mostra nada

Mostra só que a pessoa vai, aos poucos, te colocando dentro de um círculo cada vez mais fechado.

Pode parecer super inocente aquela briguinha por causa de alguém do insta que tu curtiu a tua foto, ou que tu curtiu a foto. Pode parecer que não tem nada de mais a pessoa pegar o teu celular e ficar lendo as tuas mensagens do face... do whats... doirects do insta... do telegran... mas tem.

Sabe por que que tem? Porque isso vai gerar um hábito. É. Um habitozinho, uma mania.  E esse hábito ele vai crescer cada vez mais. E a cada vez que ele cresce a insegurança cresce junto.

Antes eram as pessoas que tu tinha ali e conversava. “Por que tu tem essas pessoas que tu não conhece? Por que tu vai conversar com elas? Hã?”

Antes eram teus amigos que te levavam pra sair. “Ah, tu sai com esses teus amigos, o que vocês fazem por lá? Pode acontecer um monte de coisa, eles não são confiáveis?"

Agora é por que tu não mandou mensagem antes de sair do serviço e quando chegou em casa.  Por que tu se atrasou quarenta, vinte, dez minutos.  E não to falando só de quando a gente sofre isso, mas de quando a gente faz isso, e de como a gente pode, a qualquer momento começar a fazer isso também.

A gente vai justificar que são só com coisas grandes, como ir numa balada com os amigos, ou amigas. Isso é só a entrada da nossa caverna. Lá no fundo tem muita coisa pior, e vai bastar a pessoa começar a entrar na caverna da nossa insegurança que a gente tentar cada vez mais aprisionar. E a gente vai usar inúmeros artifícios para manipular as pessoas.

Mas insegurança (ela é bem malandra, ela é bem esperta) ela não vai se mostrar só com esses comportamentos explícitos.

Quando a gente “não da bola”, quando a gente é muito “free spirit”, muito “desapegado” sabe? Na verdade a gente tá mostrando a nossa insegurança de outra forma. De uma forma mais fria. Porque daí a gente aprisiona a pessoa dentro da nossa insegurança de outra maneira. Mesmo assim a gente tá manipulando o outro. Porque não é todo mundo que vai se atrair por esse jeito, por esse estilo de comportamento. Mas os que vão... Oh! Vão ficar presos na nossa rede invisível de insegurança.

Porque, nesse caso, a gente da “liberdade” pra pessoa. Não dá? Mas é de um jeito amoroso? De um jeito acolhedor e aberto? De um jeito claro? Ou é de um jeito frio e impessoal?

Nós precisamos entender as nossas inseguranças, pois nós temos. Nós somos muito inseguros.
Por isso vamos precisar construir em nós essa capacidade de confiar. A gente vai precisar reduzir a nossa insegurança.

Tudo, sempre vai partir de nós.

Se nós já estivermos dentro de uma relação que vive desses joguetes, desses joguinhos, a gente vai ter que sentar e buscar um amadurecimento para aquele relacionamento.

Confiança tem a ver com amadurecimento. O amor tem a ver com amadurecimento. A liberdade tem a ver com amadurecimento.

Então se a gente está dentro de uma relação que é sufocante, que não está sendo bacana, a gente pode sentar e dizer: 

“Olha, a gente precisa parar com isso. A gente precisa dar um outro rumo para essa relação. Eu estou me sentindo sufocado. Tu deve estar se sentindo sufocado. Não temos nossa liberdade individual. Fazemos tudo sempre juntos, o tempo todo. A gente fica um em cima do outro, vigiando a vida um do outro o tempo todo”.

Sabe, essa caverna para aonde a gente arrasta a pessoa, e pra onde somos arrastados, ela nos despessoaliza. Eu deixo de ser a pessoa que eu sou para ser alguém que o outro quer que eu seja. E eu faço o outro deixar de ser quem ele é para ser quem eu quero que ele seja, entende?

E não que nós, ou os outros, sejamos alguma coisa pronta, uma coisa final. Estamos sempre em mutação, sempre em construção. Não somos uma identidade fechada, pronta, acabada.

Isso é um erro grave. Porque a gente começou a relação com a pessoa, começamos pelo que ela era. A pessoa era de um determinado jeito, tinha seus comportamentos, fazia as coisas a sua maneira. Só que essa coisas só foram bacanas até o momento que começaram a afetar a minha insegurança.

Aí eu começo a tirar da pessoa as coisas que faziam com que eu gostasse dela. E quando isso acontece, estamos gostando de quem? Porque despessoalizamos totalmente aquele ser. E agora nos relacionamos com o que?

E vamos perceber que também deixamos de ser o que éramos pra caber dentro do que o outro quer. A insegurança não permite espaço. Quando se tem espaço, amor, confiança, a pessoa cabe dentro do nosso mundo exatamente do jeito que ela é.

Óbvio que aqui eu estou falando de relacionamentos saudáveis. Sem agressões físicas ou verbais. Sem violência. Relacionamentos afetivos. Não abusivos. Mas que podem se tornar abusivos se seguirem por esse lado.

Se tu está gostando desse podcast, tu pode compartilhar com teus amigos, com as tuas amigas, com teu crush, com tua namorada, com a teu namorado. Com qualquer um. Eu não vou reclamar nem ficar triste. Pode deixar suas dúvidas, sugestões, criticas, aqui mesmo no blog ou nas minhas redes sociais, os links estão disponíveis, do lado direito do blog. Se não estiver pelo blog, é só pesquisar, no Facebook ou no Instagran  por Padma Wanchen. Esse conteúdo está disponível em forma de texto, para os nossos queridos irmãos e nossas queridas irmãs surdos e surdas. Ah, não se esquece de assinar o blog. Assim tu vai ficar sabendo das novas postagens. Em breve teremos, também, um vídeo no YouTube.

Então se a gente já está dentro de uma relação, a gente pode sentar e ter um diálogo sobre isso. A pessoa pode gostar das coisas dela e tu das tuas. A pessoa pode ter os amigos dela e tu os teus. Cada um com seu tempo e seu espaço para cada um ser quem é. Se a gente gosta daquela relação, se prezamos por ela, vale a pena o esforço. Vale a pena fazer isso.

Não vai ser uma coisa fácil. Porque a gente tá bem agarradinho, dormindo de conchinha, com o nosso sofrimento. Best friends forever. Porque isso, esse tipo de relação, é sofrimento puro, gente.

 No começo de um relacionamento novo, vamos precisar construir essa confiança também. 

Daí a gente já entra nele com um olhar diferente. Já entra percebendo o outro, percebendo nós mesmos. Alertas pra qualquer comportamento inseguro que a gente tenha, que o outro possa estar manifestando. E trabalha a partir disso. Trabalha as nossas emoções. Percebendo elas.
Insegurança é um sentimento que, de uma maneira ou outra, cultivamos. Precisamos cultivar outros sentimentos que vão eliminar a insegurança e a falta de confiança.

No começo de uma nova relação podemos abrir mão de uma coisa aqui, de uma coisa ali. NO COMEÇO. Sempre tendo diálogo sobre os limites. Sobre os seus limites. Sobre os limites do outro.

A gente tem que entender as pessoas e ajudar elas a andarem melhor. Precisamos ser gentis conosco e com o outro. Vamos ter vários limites, mas esses limites vão desaparecendo aos poucos. E quando der aquele friozinho na barriga de insegurança, aquela vontade de não confiar, a gente respira fundo e não faz nada.

Vamos desenvolver a confiança. Talvez ninguém, nunca, tenha te ajudado a desenvolver confiança. Talvez ninguém tenha ajudado a pessoa com que tu vai te relacionar, a desenvolver confiança. Talvez as pessoas só tenham tirado. Mas podemos construir uma relação saudável, se quisermos.

A gente não precisa se sentir totalmente ofendido, manipulado, controlado, enquanto ajudamos outra pessoa. Não precisamos nos sentir assim por abrir mão de certas liberdades, para ajudar a outra pessoa e construir uma relação saudável com ela.

Não vamos abrir mão de nada para sempre, vamos apenas impor limites a nós e ao outro também, enquanto expandimos o nosso coração, juntos.

E, aos poucos, essas limitações serão postas de lado. É natural. Porque os dois vão buscar uma relação de confiança, não de insegurança.

Só que vamos ter que lidar de um jeito ou de outro com a insegurança. A gente pode fazer o outro reprimir a dele. Podemos reprimir a nossa. Mas aí não é inteligência emocional. É sufocamento emocional. A gente abre mão de uma coisa, por um tempo, pra nunca mais precisar abrir mão de nada, nem da relação.

A gente pode entrar na caverna das pessoas e dar uma olhada lá dentro, ver como é que é lá. A gente vai ajudando a pessoa a sair. Com diálogos, com conversas, com acordos dentro do relacionamento.

Construir é difícil. Mas se vale a pena, precisa de um esforço. Relevar brigas, provar nossa inocência. Não precisamos nos ofender tanto com as coisas.

E estipular, na nossa mente, um tempo para que essa confiança surja. Podemos, no fim desse tempo ver se temos algum progresso. Trabalhar no que está difícil. Persistir. Mas temos que ser sinceros quanto aos sentimentos. Se você não consegue, de forma nenhuma, confiar nessa pessoa, ou se ela não consegue, de jeito nenhum mesmo, confiar em você. Uma despedida amiga é um ato de bondade com todos.

Quanto tempo tu acha que é necessário pra construir uma relação de confiança com alguém?

Leva, mesmo, uma vida inteira? Será que as coisas são assim ou nos ensinaram assim?

Tira um tempinho pra pensar o que, de fato, tu espera dentro de um relacionamento, de um casamento? 

Pensa sobre isso um pouco.

Pensa no que tu espera que o OUTRO possa te dar. Quais são os limites que TU está dando para as outras pessoas? 

Elas podem, ou devem suprir as TUAS inseguranças? 

Elas têm que te deixar seguro?

Responde isso pra ti. 

E se quiser pode compartilhar as tuas responsas, compartilhar a tua opinião, aqui no blog, ou nas redes sociais, como já disse.

Se gostou desse conteúdo, compartilhe. 

Eu sou Padma Wangchen e esse foi o nosso Tema Gerador.
Até mais e sempre em frente.

sábado, 22 de setembro de 2018

Podcast Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos

Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, Teoria x Prática.


Olá, seja bem-vindo ao primeiro podcast do Tema Gerador.

O texto a seguir foi extraído de um áudio e está representado de forma a manter-se o mais fiel possível do que foi dito.

E eu vou começar esse primeiro programa perguntando se tu já ouviu falar em Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos?

Sabe pra que serve? Quem trabalha nele? Quem o oferece esse serviço?

Nesse podcast eu vou tentar apresentar e explicar um pouco dessa política pública, que tem ajudado a mudar e a melhorar a realidade de muita gente.




Bom, o Serviço de Convivência é, basicamente, um serviço socioeducativo realizado em espaços autorizados e que devem seguir as regulamentações e diretrizes do MDS, o Ministério do Desenvolvimento Social. Está dentro da política de proteção básica do SUAS. O Sistema Único de Assistência Social.

Os profissionais que atuam, que trabalham nos espaços que ofertam o Serviço de Convivência são bem variados, depende das condições financeiras da instituição. Alguns possuem psicólogas, assistentes sociais, pedagogas, pessoas para limpeza e confecção do lanche.

E tem os profissionais que, como eu, atuam como educadores sociais, ou educadores populares. O termo correto deveria ser educador popular. No entanto educador social ficou mais popular, porque, nós, educadores atuamos em projetos sociais.



Existem várias formas de organizar um Serviço de Convivência. 

Eu vou falar sobre aqueles que eu tenho um conhecimento maior. Que são os serviços oferecidos para crianças e adolescentes de 6 aos 18 anos completos.

Uma dessas formas é organizar os grupos por faixas etárias. Por exemplo, um grupo com crianças de 6 a 9 anos. 

Esse grupo vai ter um educador, que será o seu educador referência. Que é aquele que vai passar a maior parte do tempo com essas crianças. Vai ajuda-las na hora do lanche; em alguma questão de higiene, como escovar os dentes; vai acolher essa turma quando chegarem ao espaço do SCFV; Vai desenvolver um ritmo com eles, como uma roda de conversa na entrada, alguma reflexão (compatível com a idade e com a identidade do grupo); e vai, também, executar um planejamento socioeducativo com esse turma, que ele é a referência.

Além do educador referência, esse formato também vai contar com algumas outras oficinas, que a turma será convidada a participar. Daí essas oficinas vão variar de acordo com a instituição. Mas são atividades atrativas para esses usuários.

Outra forma é quando a entidade trabalha só com as oficinas

Daí os educadores, com seus planejamentos, vão circular entre os núcleos dessa entidade. Normalmente, nesse formato, os grupos não são divididos pela faixa etária. Os núcleos é que são divididos por fixa etária. Porque o educador não vai ter como fazer um planejamento capaz de atender crianças de 6 anos e adolescentes de 17 anos.

Na realidade até tem como, porque são oficinas. Não é como o educador referência que tem um trabalho mais especifico e mais difícil de ser elaborado pra idades muito espaçadas.

Eu não vou falar, nesse podcast, sobre os planejamentos socioeducativos, porque é um assunto bem extenso, mas terá um para esse tema mais adiante.


Além desses dois estilos, de Serviço de Convivência, que eu mencionei de forma bem rápida, existem vários outros formatos.

Tem serviço de convivência para idosos e para adultos também, além desse para adolescentes, crianças. Tem para todas as idades na verdade.

Tem projetos que oferecem oficinas profissionalizantes para a comunidade, e eu sei que em Porto Alegre tem um SCFV para pessoas em situação de rua. Que, se eu não me engano, é o primeiro do Brasil.



Mas e pra que serve, afinal, um SCFV?

Tem uma frase que é bem clichê. Eu não tenho nada contra os clichês, quando são bem aplicados são clássicos. 

Então, na verdade tem uma frase clássica: Serviço de Convivência é para a garantia de direitos.

Garantia de direitos porque as atividades devem ser protetivas, preventivas e proativas. Sempre pensando na defesa dos direitos dos indivíduos e no seu desenvolvimento, pensando nas suas capacidades, nos seus interesses e nas suas potencialidades.

Pra gente entender isso um pouco melhor a gente precisa saber que o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, tem sim, um “publico alvo”. Ele é oferecido para pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Vamos lembrar que o SUAS, o Sistema Único de Assistência Social é uma política pública, ok? Assim como o SUS. 

Não é preciso que se tenha uma renda mínima pra usar um hospital público, um posto de saúde, uma UPA. Não precisa, basta ir a um desses locais, quando tu precisar, que o teu direito como cidadão, como pessoa humana, está garantido.

Com as políticas do SUAS é a mesma coisa. Existem prioridades para esse serviço. Porque ninguém vai ir até um hospital se não estiver precisando de atendimento, não é?

O público alvo carrega esse título de “pessoas em situação de vulnerabilidade”. Ainda que “situação de vulnerabilidade” não defina uma categoria de pessoas, existem grupos sociais que estão mais expostos às violações dos seus direitos básicos, como segurança, alimentação, lazer, saúde e educação. Isso é que os deixa mais vulneráveis. Não que sejam os únicos vulneráveis.

Em um certo nível todos nós estamos socialmente vulneráveis. A violência é algo do qual ninguém está livre, há vários fatores que nos deixam vulneráveis. Existe uma coisinha chamada impermanência que pode do nada, de uma hora pra outra, destruir tudo que a gente tem.

Mas isso não igual. Não é exatamente a mesma coisa. 

Nas comunidades mais carentes esse risco não é algo que pode vir a acontecer, é uma realidade constante. E não só nas comunidades carentes. No campo, no interior, essas vulnerabilidades também são mais “acessíveis” por assim dizer. 

E é bom reforçar que quanto maior a vulnerabilidade, maior a prioridade da pessoa ser inserida em SCFV.

Mas não dá pra cair na outra margem e pensar que apenas crianças e jovens das periferias, ou do interior, estão vulneráveis à violação de direitos. Não é bem assim.

Não são apenas crianças pobres de periferia que são abusadas sexualmente. Que estão sujeitas a violência psicológica. A violência física, temos o terrível caso do menino Bernardo que nos mostra isso.  Não são só elas que estão expostas as drogas e ao álcool. A serem aliciadas para tráfico.

É por isso que, mesmo tendo um “publico alvo”, todos podem participar de um espaço que oferte esse serviço.

E como alguém chega até um SCFV?

Uma forma é indo até o CRAS, Centro de Referencia de Assistência Social. Lá as assistentes sociais ou os assistentes sociais, vão encaminhar a pessoa para um local que ofereça SCFV.

Ou a pessoa pode ir diretamente até um centro social que tenho SCFV e fazer a sua inscrição lá mesmo, na própria instituição. Mas ela terá que ir até o CRAS, caso haja necessidade de alguma documentação, mais específica, feita por lá.

Essa parte burocrática, pra quem quiser saber mais, pode acessar o site do MDS, é um site bem fácil, é mds.gov.br. O site reveladors também tem um conteúdo interessante. E é só jogar a sigla SCFV no google. Bem fácil.

Se tu está gostando desse podcast, tu pode compartilhar com teus amigos, com as tuas amigas, eu não vou reclamar nem ficar triste. Pode deixar suas dúvidas, sugestões, criticas, aqui mesmo no blog ou nas minhas redes sociais, os links estão disponíveis. Se não estiver pelo blog, é só pesquisar, no Facebook ou no Instagran  por Padma Wanchen. Esse conteúdo está disponível em forma de texto, para os nossos queridos irmãos e nossas queridas irmãs surdos e surdas.

Ah, não se esquece de assinar o feed. Assim tu vai ficar sabendo das novas postagensEm breve teremos, também, um vídeo no YouTube.

Então, devido a esses fatores históricos e culturais, que tornam os habitantes das comunidades carentes mais vulneráveis, é que o Serviço de Convivência tem os fatores protetivos, preventivos e proativos.

Protetivo, porque, dentro do espaço, ainda que seja por um período curto de tempo, eles não estão expostos às drogas; ao álcool; ao trabalho infantil; aos abusos físicos, psicológicos e sexuais que eles possam vir a sofrer; ao aliciamento para tráfico; a discriminações raciais; a homofobia e a transfobia e por aí vai.

[Um pequeno adendo: O SCFV é da proteção básica da assistência. Ele é acionado para proteger. Protetivo né? Ou seja, para evitar que os direitos sejam violados, ou quando há suspeitas da sua violação. Quando ela já ocorreu é acionado o serviço de proteção especializada. Aí a coisa passa para o CREAS, Centro de Referencia Especializada em Assistência Social.]

O caráter protetivo é bem simples: proteger os direitos dos seus usuários.

Preventivo, é justamente prevenir os usuários dos riscos sociais que eles podem correr. Dando a eles ferramentas que ajudam na sua conscientização como cidadãos portadores de direitos e deveres.

Preventivo também vai abranger questões de saúde e de identidade, autoestima, etc. Tudo, ou quase tudo, que previna danos a pessoa, a sua família e a sociedade.

O caráter proativo surge no contexto das atividades socioeducativas, na execução de um bom planejamento. Porque lá tem que ser mais do que só trazer os usuários para sentar e ouvir alguma coisa. Pra aprender alguma coisa. Pro educador ensinar.

O SCFV é mais do que isso. E também é mais do que só um lugar pra passar um tempo com os amigos.
 Essa parte é muito importante, eu vejo como uma das mais importantes. Mas esse “passar um tempo”, tem que ser saudável, construtivo, informativo. Tanto que desperte a pró-atividade, o interesse, a transformação ativa e positiva dos usuários


Essa pró-atividade se manifesta quando os usuários convidam seus amigos e colegas para participarem do projeto, por se perceberem agentes da mudança. Quando mudam, por compreensão, algum comportamento prejudicial para si e para os outros. Quando corrigem falas preconceituosas e excludentes. Quando vão ampliar a sua visão de mundo.

No entanto percebo através da experiência, de leituras e estudos, de conversas com outros educadores e educadoras, que muitos espaços, que ofertam o serviço de convivência, bem como os próprios educadores, se preocupam pouco com alguns pontos importantes da parte “teórica”.

O primeiro problema da parte “prática”, começa na regulamentação da profissão do Educador Popular. É de extrema necessidade uma formação superior, ou até mesmo, técnica para os educadores e educadoras. Um teto salarial. E as atribuições da função de um educador ou educadora popular.

Essas “informalidades” acabam deixando abertura para os erros cometidos pelos educadores.

Os erros mais comuns estão ligados à maneira de “educar”. Às vezes, e falo isso porque já fiz, educamos pela opressão que aprendemos. Aprendemos e sofremos ela, seja na escola ou e em casa.

Aprendemos, fomos ensinados através do exemplo, que educar tem mais a ver com impor do que com compor. Nós educamos a partir de nós, apenas. Sem uma troca com os usuários, sem nem ouvir ou perceber eles.

Já presenciei educadores fazendo piadas e comentários homofóbicos e racistas, por exemplo. E isso acontecendo dentro de um espaço de proteção básica é, na verdade, um desserviço. Porque o educador, sendo parte da instituição, fazendo isso, está violando direitos, ao invés de assegurá-los.

Pela parte das instituições entra questão de que, algumas delas, tratam os planejamentos socioeducativos como à coisa mais importante dentro do espaço. E no lugar de se preocuparem com o fortalecimento de vínculos entre grupo, ou com a família, com o educador, com a comunidade, o mais importante é que o planejamento esteja repleto de atividades. 

Que os grupos produzam isso, façam aquilo, enfeitem não sei o que, criem uma coisa lá. E, muitas vezes, nem importa se aquele planejamento está atingindo algum caráter, de fato, socioeducativo. Só é preciso um esforço, uma produção contínua.

Há espaços onde o mais desejado pelas coordenações, ou pela direção, é que os grupos sejam “dóceis” e obedientes. Que não façam barulho ou nada “inconveniente”. É como se educador tivesse que domesticar alguém para caber dentro de uma expectativa social que, talvez, nem faz muito sentido pra ele naquele momento. É estimulado muito mais a repressão do que a compreensão.

Eu não acredito que as instituições ou os educadores que fazem isso, façam isso por mal. Mas esses erros pontuais existem e carecem de atenção para que deixem de existir.

Os educadores precisam entender o contexto da educação popular e para o que servimos. E as instituições precisam olhar com cuidado as práticas dos educadores e sua própria política interna que, talvez, possa estimular esses comportamentos destrutivos, ou até mesmo acabam deixando essas práticas subentendidas. E não refiro aqui ao que está no papel, bonitinho, no PPP, mas sim ao que se pratica no dia-a-dia.

E essa mudança de perspectiva sobre a realidade dentro do SCFV, precisa ser assertiva e libertadora. Precisa ser compreendida e esclarecida. Tanto para o educador, quanto para todos que estão envolvidos com o projeto. Seja no nível que for.

Penso que essa diferença entre a teoria e a prática, surge porque as pessoas que criam a parte teórica entendem que, quem vai por ela em prática, já tenha essa compreensão: Que a teoria deve ser a ação a ser praticada.

Serviço de Convivência é uma política pública, como eu já disse. Quem deveria executá-la é o governo. Sejam as prefeituras, o governo do estado ou federal. Mas, pelo menos aqui no Rio Grande do Sul, muitas entidades, que executam essa politica pública, são instituições privadas de filantropia, ou beneficentes.

Essas instituições recebem um incentivo financeiro muito baixo das prefeituras, ou do estado. Esse apoio financeiro mal dá pra pagar as despesas mais básicas da instituição. E isso também contribui para a diferença da teoria e da prática.

O fator humano é essencial. O conhecimento é essencial, as capacitações para a equipe são muito importantes. E o financeiro também é.

Tudo isso faz com que haja uma diferença muito grande entre teoria e prática, no Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos.

Me atrevo a dizer (e eu posso estar errado com essa afirmação, no entanto acredito nisso), por isso que vou dizer: Essas dificuldades todas, são secundárias. Elas existem e interferem no bom andamento dessa política pública, no entanto se as pessoas que trabalham nas instituições, não importa o que elas fazem lá dentro, puderem, pelo menos, atuar com a motivação correta acolhendo os usuários da maneira como eles chegam; cuidando deles com amorosidade; oferecendo compreensão ao invés de repressão; ajudando a pessoa com aquilo que ela tem capacidade de compreender naquele momento, aí sim as dificuldades não vão parecer tão solidas.

Mas não vamos fingir que essas dificuldades não existem, por causa disso. Devemos sempre, sempre, sempre, lutar para que elas deixem de existir.

E isso não é a mesma coisa que pensar, o que é outro erro bem comum, que o educador só precisa “gostar” daquele trabalho. Ele precisa gostar, mas precisa saber também. Precisa conhecer o serviço que ele faz pra poder fazer com competência o que ele já faz com amor. 

E essa motivação, quando verdadeira, vai incluir a busca por uma melhora na qualidade do serviço prestado. Uma busca por entendimento.

E tu, já conhecia o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos? 

Sabia que existiam Educadores Populares ou Sociais? Sabe se tem alguma entidade que oferte esse serviço perto da sua casa? Na tua cidade?

E, se gostou desse conteúdo, compartilhe pra mais gente conhecer. 

Precisamos nos conectar com o que há de bom no mundo. E serviço de convivência é uma coisa muito legal!

Eu sou Padma Wangchen e esse foi o nosso Tema Gerador.
Até mais e sempre em frente!